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APENAS QUESTÃO DE GOSTO
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Capítulo 7 |
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Dizem que quem não sonha não vive. Pode até ser. Afinal, eu não sento na cadeira ao lado do divã do tal do doutor Freud, nem ganho dinheiro sublimando a cera dos ouvidos com os ai-ai dos pissicões. Mas uma coisa eu sei. Se o peru morre de véspera, qualquer sonho pode ser um pesadelo. E já sonhei mais do que virgem antes de e já tive mais pesadelos do que ex depois do de. Tantos, que nunca esqueci o dia em que os sonhos viraram pó de peido e os pesadelos sumiram que nem dor de cabeça com Doril, como juram os farmacêuticos das agências de propaganda. Os sonhos foram badalar sinos no campanário das urtigas quando aquele secretário de Segurança da Operação Dignidade se candidatou a deputado e eu paguei as custas do processo. Paguei, assim, o pilar da ordem constituída precisava botar a mão nos marechais de todos os exércitos para financiar a porra da campanha e, como eu pescava alguns na folha de pagamento dos bicheiros, me deram crisma de corrupto e, a bem da moral e do serviço, o mãos-limpas das arábias me demitiu sem mais aquelas. Aí, foi a vez dos pesadelos virarem Mané Garrincha e me crismarem de João. Não é mole pegar siri de pé descalço. Não sobra nem unha encravada. Mas, assim como não há rosa que sempre cheire, nem merda que nunca deixe de feder, como dizia meu velho pai e dizia muito bem, no dia em que fisguei aquele royal straight flush no Hotel das Paineiras, o negão das eternas verdades cavalgando o cofre-suíço das costelas colunáveis, os meus pesadelos também foram badalar sinos no campanário das urtigas. Num país que se orgulha de ter cento e trinta milhões de técnicos de futebol e não consegue armar uma seleção capaz de fazer o que fizeram as feras do Saldanha contra a Itália, em 1970, ganhar de uma tacada só uma cobertura na Tijuca, um Porsche Turno 3000 e um estaminé que se não é nenhum cafofo à la divã de Rockefeller, consegue botar freguês pelo ladrão, é saldo médio para banco nenhum botar defeito. Por isso, agora, sonhos e pesadelos são calorias que raramente aparecem no cardápio dos meus engasga-gatos das penumbras. A não ser ontem. Ontem, foi uma noite do caralho, como teria dito o Jornal Nacional ao noticiar o resultado do combate do cavaleiro da Távola Sempre-Em-Cima-Do-Muro contra o cavaleiro da Távola Do-Lado-Mais-Direito-Do-Muro, se a inocência e a castidade dos ouvintes não pegassem de pecado capital com a justeza da verdade. Aquele coquetel de cipós, temperado com a casca de limão do louro acetinado da belíssima Florismália, não desceu de jeito maneira. Meteu o pé no freio na primeira curva do gogó e foda-se, daqui não saio, daqui ninguém me tira. Não fosse a cobra criada do muque do velho George Ballantine e eu teria engasgado mais do que araponga do SNI depondo no faz-de-conta da bomba do Riocentro. Mas, mesmo assim, foi um destempero geografar o tal do país imaginário. Só lá para os finalmente da garrafa o cipoal desenraizou e entrou no ralo do esgoto. Entrou no ralo do esgoto, assim, eu desmilingüí debaixo da percalina e as filmagens começaram. Ora era o close-up do cururu voador que virava kamikaze e queria tirar uma tangente no meu saco, ora era a escuridão dos acordes estridentes da Procissão da Cruz que virava secretário de Segurança e queria enfiar os berros da Cruz! Cruz! Cruz! no olho do meu cu, ora era o freeze da imagem do grande cidadão que virava cisne negro e queria que eu mergulhasse na merda do lago, ora era a tela escurecida dos primeiros acordes de O Canto da Nossa Terra que virava agente do Departamento de Ordem Política e Social, aquele DOPS que limpava os banheiros da catedral de Brasília, e me prendia, acusado de comunista, ora era o peignoir de seda lilás do fricote da belíssima Florismália que virava promotor e me acusava de tarado, ora eram as pianíssimas cordas do violão do Estudo Nº1 que viravam sucuris e queriam me engolir, ora era o samburá do pescador de robalos que virava trem de ferro e queria me esmagar, ora era a tripa do Ximu que virava bisturi e queria podar o meu nariz em brotoeja de aquilino, ora eram as malhas das meias-calças que viravam marimachos e queriam me enrabar Não é para me gabar, não, mas tenho certeza que nem o Joltin Joe, o Joe DiMaggio dos ciúmes à la taco de basebol, acordou tão esbagaçado quanto eu, depois do enfim sós da Marilyn Monroe. Mas foi até um ato de caridade. Com o chrono do meu casio alarm cravando 8:13 31 e o zoom da Nikon balançando no pescoço que nem sino de campanário em São João das Antenas, parti para cima das minerais magnesianas que nem serial-killer dirigindo ônibus escolar depois das aulas. Disposto a secar todas as fontes e a calar o Cruz! Cruz! Cruz! da figadeira. Não virei manual de hidropatia comparada, mas valeu o quilômetro de arrancada das águas do parque. À sombra de um quiosque, que nem aqueles cocôs da antiga da Praça XV, o pescador de robalos arengava a um Estado-Maior Conjunto de silêncios e abanos de cabeça, planificando a batalha do grande cidadão contra os fricotes da belíssima Florismália, fruto da peçonha do cururu voador, ou vaice-virsa, que a geografia do tal do país imaginário era mais enredada do que novela de televisão antes do gimmick decisivo do patrocinador: acaba logo essa merda, que eu não pago nem mais um tostão. Quem primeiro radiografou a fervência dos meus cálculos biliares foi a tripa do Ximu. Divisas de sargento no meio das estrelas dos generais do Estado-Maior Conjunto, era que nem ministro da Fazenda estofando os peitos em reunião do FMI. Nem cheirava, nem fedia. E nem precisou sair de fino. Ninguém deu falta do silêncio. - Já leu? E gostou? Fazer o quê? Xingar as autoridades alfandegárias do país dos cipós por não me terem fornecido um guia à la marechal Rondon da floresta ou fazer do 15º tratamento um palácio e do meu pesadelo um boi de binóculos? Melhor dar uma trava na fervência dos cálculos biliares, que a pergunta doble da tripa do Ximu cheirava longe a necessidade mais do que premente de auto, autíssima-afirmação. - Li ontem mesmo. E gostei muito. O gogó da tripa desceu e subiu com tanta fome, que o seco da engolida bateu longe a frigideira dos centígrados. Cio da terra em função de e os 212 graus farenheit da Lauren Bacall comendo a poeira da fritura. - Que bom. - Gostei mesmo. Lembra do garanhão italiano apanhando que nem polícia federal em fiscalização de aeroportos, mas afanando a luta final no Rocky, um Lutador, e ainda comendo a sobremesa no Oscar de Melhor Filme que ganhou em cima de Rede de Intrigas e Todos os Homens do Presidente? Pois era igual, igual, o Ximu dando uma de Stallone, matando gregos e troianos no pau e no facão. Só o olhar de corisco que mandou em cima do Estado-Maior Conjunto valia muito mais do que pesava. Agora não era só meu velho pai que sabia o que dizia. O 5:15 do Profeta Miquéias mais que mostrava que também entendia de vinganças. - Não é por nada, não, mas um dia eu juro que ainda mando o Zózimo à puta que o pariu, sabe? Nunca vi ninguém com um ego que vale por cem eus. Mas sabe por quê que eu ainda agüento? Porque adoro cinema e faço o que mais gosto de fazer, que é bolar argumentos e escrever os roteiros, entendeu? Quê que há, cara-pálida? Esse eu juro não espirra mais no Gala Gay do que corista resfriada na pista do Holiday on Ice, não? Não entendo picas de silicones, mas bater pé num juramento era que nem botar visgo em praga de maldade. Pegava até no sopro. Só que eu não estava em Caxambu para farejar agás de homos. Estava em Caxambu para flagrar um quadrado de largura cagando e andando no conjugal do colchão de uma Lassie que metia a Nunca Fui Santa no trinca-dedo da mais perfeita sandália havaiana. E, aí, já viu. Para manter o prumo da circunstância, tirei os conformes da cumbuca e deixei o Ximu pregar no deserto do lembra quando. - Lembra quando ele pediu pra eu pegar um roteiro e eu perguntei se não era melhor trazer o decupado? - Hum, hum. Não sou, nunca fui e nunca serei um matemático, meu velho pai também nunca aprendeu a dividir com os fregueses os prejuízos do boteco, o único que dava uma de contador de trocos à la contrabandista de fronteira era o velho Abílio Quitandeiro, vascaíno roxo e meu falecido tio e padrinho, mas uma coisa eu digo com a certeza que o cavaleiro da Távola Sempre-Em-Cima-Do-Muro, eleito presidente do Brasil no passado dia 15, não vai descer do muro nem amarrado à mão direita de Deus Padre. Aquele hum, hum, mesmo não sendo dois e muito menos onze, tem um peso convictivo que nenhuma matemática jamais terá. E pode até escrever, se a cobra do paraíso entendesse de simulacros não precisava nem tentar a Eva com promessas. Os dois agás seriam suficientes. E foram. O sorriso do Ximu abriu jugulares e vias transversais, e os olhos faiscaram até em futuríssimos orgasmos. - Sabe por quê que ele não deixou eu trazer? Porque quem faz a decupagem não é ele, sou eu. Eu não sabia o que era decupagem, afinal só pegava um cineminha por semana, antes ou depois do pôquer, dependendo do que a xoxota do dia fazia sem as cartas, e no vestibular da Metro-Goldwyn-Mayer & Cia, onde o nº 5 do Chanel matriculou as minhas preferências, a questão decupar não entrava em nenhuma das múltiplas escolhas. Mas o Ximu sabia desfazer o nó da tripa. - Decupar é definir a ordem das cenas e dos planos de filmagem do roteiro e todo o material necessário, tá entendendo? Entender, já lá dizia meu velho pai e dizia melhor do que ninguém, é que nem ralo de banheiro. Tem ralo que entope, tem ralo que não. De banheiros e ralos eu ainda pescava minhas trutas. Agora, desse tal decupar, necas. Nequinhas. Mas fiz de conta. Afinal, neste imenso Almanaque Abril de 8.511.965 quilômetros quadrados de superfície brasileira e oficialíssimos faz-de-conta, mais um menos um, em nada alteraria os sotaques existentes. E mandei ver aquele aceno de cabeça à la boi de presépio que os puros-sangues do general Figueiredo faziam melhor do que ninguém. Satisfeito com o silêncio dos relinchos, o Ximu agradeceu a função de e abriu todas as vias navegáveis. - Só que o Zózimo, além de não saber escrever um roteiro, também não sabe lê-lo, e muito menos sabe filmar o que está escrito, tá dando pra entender? Aí, como é ele, ou melhor, como é a mulher dele que paga tudo, o que é que o desgraçado faz ? Manda a turma decorar a minha decupagem só pra dizer que entende do assunto, tá entendendo? Só que na hora de filmar, muda tudo, filma lá do jeito dele, um jeito que ninguém entende, e ainda bota banca, dizendo que se não houvesse inspiração não haveria cinema. Mas eu não dou a mínima. Não dou mesmo. Faço o meu trabalho, recebo o meu salário, e o resto que se dane. Roteirista, no Brasil, é merda mesmo. Portanto... Apesar das reticências, o Ximu não chegou a fazer aquela pausona que o Tarcísio Meira fez no Independência ou Morte, antes de mandar o grito do Ipiranga furar os tímpanos dos orelhões de Lisboa. Mas a intenção foi a mesma. Gritada ou não, a maior dor dói paca. - Mas tem coisas que eu não abro mão. Ah, não abro, não. Trilha sonora, por exemplo. Olhou firme as frigideiras dos centígrados que fritavam torresmo nos poros das minhas rugas e, se não bateu continência à intenção, fez a pergunta com a mesma consciência profissional com que o James Bond comia aqueles mulherões que os diretores botavam na cama dele no The End de cada filme. - O quê que o senhor achou daquela abertura com os acordes da Procissão da Cruz, do Villa-Lobos, hem? Aqueles Cruz! Cruz! Cruz! não mostram, logo de saída, um clima dos mais angustiantes? O decupado Cruz! Cruz! Cruz! não devia saber, afinal só nos tínhamos conhecido ali nas hidro, mas eu morava na Tijuca, justo, justo, na Rua Maestro Villa-Lobos, dois barrancos abaixo do Morro do Turano, e entender de climas angustiantes era comigo, mesmo com as seis polegadas do cano do velho Taurus .38 sempre vigiando as balas perdidas no acaso. De forma que respondi na maior sinceridade. - Mais do que perfeito. O sorriso das três cruzes bateu nas estrelas dos generais do Estado-Maior Conjunto e voltou com o dobro dos dentes reluzindo mais do que olho de pilar da Associação Comercial casando filha com filho da Federação das Indústrias. Ou vaice-virsa. - O pessoal não queria, de jeito nenhum. O Zózimo, então, queria porque queria a Júpiter, você deve conhecer, a Sinfonia Nº 41 em Dó, de Mozart, só porque, dizia ele, ela tem a grandeza e a majestade do deus Júpiter e O Grande Cidadão e a Lenda do Cururu Voador é um filme grandioso. E só entendeu a minha proposta depois que eu peguei o disco da Suíte Nº 4, por sinal uma gravação ótima da Orchestre National de la Radiodiffusion Française, regida pelo próprio Villa-Lobos, e toquei na cama dele. Quer dizer, na casa dele. Cara-pálida, cara-pálida, devagar, que por muito menos o ex-governador Lacerda sifu e o ex-presidente Juscelino embarcou numa sinuca sem retorno. Mas tudo bem. Casa sem cama não é casa e confissão sem erro também não. De modo que deixei os lençóis em paz no xilóide e fiz de conta, e o Ximu xiloidou numa boa e mandou ver o resto dos conformes. - E foi só aí que ele se mancou e entendeu que o melhor clima seria o meu, tá entendendo? E, então, agora que o Tancredo foi eleito presidente, que trilha melhor do que uma música bem brasileira, bem nossa, não concorda comigo, não? Mas foi uma luta. Mesmo depois do Zózimo me dar razão, o Geraldo Columbano e a Catarina Bordalo, que são os atores principais, duas bestas que só têm cartaz, ele, porque faz umas pontas nas novelas da Globo, e, ela, porque já tirou a roupa na Revista Playboy, ainda chiaram e queriam porque queriam que o Zózimo botasse um troço dos Rolling Stones, Street Fighting Man, não sei se conhece, só porque fala de insurreição e o filme tem aquela revolta dos camponeses, que o cururu voador lidera e o grande cidadão acaba controlando, tá dando pra entender? Não estava, não, mas não era hora de botar ventilador na farofa do pai do 15º tratamento. Era hora de dar um tempo e deixar a magnesiana amaciar a figadeira. - Eu achei aquela parada no Cruz! Cruz! Cruz! muito da bacana. Me lembrou, mal comparando, aquela paradinha que o velho Morengueira dá nos sambas de breque dele. É o que dá meter colher de prata em angu de cogumelo sem saber se tem veneno. Escurece na hora e a mancha só sai na base do muque e pedra-pomes. E foi o que deu. O sorriso das três cruzes só não bateu asas nem voou porque o cururu navegava em maré pinto-calçudo. Mas o tempo fechou e os navegantes foram todos avisados. Com neblina use faróis baixos. No aperto, valeu-me a contrição do Ximu. Enquanto o gogó ciscava pregos e lixas, botei as rédeas nos faróis e amanteiguei a neblina. - Eu não entendo muito de música. Escuto e gosto, ou não gosto. Mas aquela Cruz! Cruz! Cruz!, isso eu garanto, me deu até um arrepio. Gostei mesmo. Nada como viver num país tropical, abençoado por Deus. A Petrobrás diz que tira petróleo até debaixo de água e o preço da gasolina aumenta que nem professor e aluno de faculdade virando operário no Partido dos Trabalhadores, e as trovoadas parecem até aquelas estrelinhas de Hollywood, convidadas para assistir o Carnaval. Pinta um trial divan de qualquer pechisbeque metido a poderoso chefão e babau. Many thanks e adeus trovisco, que nos trópicos até a água é perigosa e deve ser bebida engarrafada ou fervida. E aquele gostei mesmo foi o many do babau. O sol da boa vizinhança matou a pau a trovoada e o sorriso do Ximu planou sem mais aquelas e aterrou sem nenhum acidente de percurso. - Eu também sou assim. Por isso botei a Procissão da Cruz, que é uma música que gosto muito. Com o cachimbo da paz fumegando mais do que tenda de índio em Hollywood, a rinha foi fechada e cada um ficou com o seu galo. Mas não deu nem para saborear a cabidela. O berro do robalão matou decibéis e correlatos, e rolou que nem montanha a caminho de Maomé. - Ximu! - Sim, senhor. Um pé cá, outro lá, e lá se foi o Cruz! Cruz! Cruz! amansar o cururu nas iscas do pinípede. Com as minerais magnesianas já em função de, matei um souza cruz com duas covas-fundas e dei uma mirada nas estrelas do Estado-Maior Conjunto, ainda confabulando. Confabular é ótimo. Como sempre dizia meu velho pai e dizia muito bem, se todo mundo falasse como deve, quem votaria em candidato? Nem o Dicionário do Aurélio, que confabula numa boa, mas na hora da questão não faz o menor questionamento. O quiosque, aquela xerox dos cocôs da antiga Praça XV, também não era o mictório do Pentágono, de forma que foi fácil contar as entidades. Treze. Contando o anzol do pescador de robalos e a angústia das três cruzes, sete botavam gilete na cara e seis botavam no sovaco. Seis feminas, como dizia D. Maricota, a sempre fissurada admiradora das duzentas mil páginas de A Retirada da Laguna e gargarejadora jubilada de frases lapidares dos meus tempos de colégio, não eram, propriamente, um harém, mas era odalisca suficiente para justificar a suspeição do n° 5 do Chanel da Lassie à la Nunca Fui Santa. Qual delas, só Deus, a própria e o quadrado da largura poderiam botar a mão na Bíblia. Mas como, e disso eu entendia, botar a mão na Bíblia era só jurar que se diria a verdade, se não fosse só jurar, juiz não andaria de mercedes nem promotor e advogado comprariam coberturas na praia de Ipanema, quem sabe a canalização do adultério tinha algum furo e alguém tinha percebido o vazamento? Que isto de vazamentos é que nem controle de qualidade. Por mais impostos que se paguem o Congresso nunca deixa de vazar. Portanto, era só fareja aqui, fareja ali, que o cheiro, fatalmente, pintaria. Se até a Lassie, que usava um Chanel da melhor qualidade, tinha conseguido separar a essência da incênsia, porque é que eu, que só usava desodorante esguichado e era pago para separar o trigo do centeio não ia conseguir? - Bom-dia! Algum de vocês já foi acordado no berro e quase desmilingüiu com o decibel estourando no mais alto corno da lua? É pior do que ser apanhado em cama alheia, podem crer. E a merda é que a minha referência foi dupla. Além de assustar com o grito, também fui apanhado em flagrante delito de mirone. - Veio fotografar a filmagem? Fazer o quê? Virar cururu voador e sumir na primeira leva de pardais, matar o pescador de robalos, iscas e anzóis afiando os cascos do colete e da careca, e um sorriso capaz de baratinar a ordem-unida do comandante dos centígrados, ou planar à la Ximu sem mais aquelas e deixar o sorriso aterrar sem nenhum acidente de percurso? Das três, nenhuma, que não deu nem tempo. Os decibéis do pinípede mataram a pau a cor local e as fontes geradoras. - Já, já, vamos começar. Primeiro, um plano do grande cidadão junto do lago, coisa de segundos, depois vêm os cisnes. Maravilha. Eu nunca tinha visto um cisne na vida, a não ser no cinema, e, preto, só nos filmes P&B da Metro que passavam em Niterói-antes-da-ponte. Me disseram que o pessoal do Palácio do Itamaraty tinha ganho um casal de cisnes negros para chamar visitantes ao fantasma da Rua Larga, mas nunca vi o negrume. Nunca vi, mas sempre tive curiosidade de ver um daqueles urubus de casaca que só cantam uma vez antes da morte. Se não é verdade, quem mentiu foi a D. Ermelinda, a professora de ciências dos meus tempos de colégio, que não tinha nenhuma fissura que se visse, mas dizia que o tiro que matou o nunca esquecido presidente Getúlio Vargas, no dia 24 de agosto de 1954, choro e ranger de dentes do anjo Hahaiah e dos santos Emília de Vialar, Maria Micaela e Bartolomeu, apóstolo, foi o canto do cisne dos bons tempos. - Vão filmar com cisnes negros mesmo? - Vão ser negros, sim. Mas, para filmar, não precisa que sejam cisnes, nem que sejam negros. Filmam-se dois marrecos e os efeitos especiais fazem o resto. Puta que o pariu! Não era a primeira decepção da minha vida, mas foi a primeira decepção da filmagem. Razão tinha meu velho pai, que nunca tinha visto filmar merda nenhuma, mas usava óculos bifocais. Só acredita no que vê quem nunca foi no oculista. - Quer dizer que... Nem presidente do Supremo Tribunal seria tão concreto na súmula do processo. O pescador de robalos olhou-me de cima das iscas dos anzóis e só não meteu a mão na minha guelra porque o cubatão à la Fidel desce Sierra Maestra acelerado não deixou. - Hoje, sem efeitos especiais, quem se atreveria a filmar? Os efeitos especiais estão para o cinema como as máquinas de calcular estão para a matemática. São condição sine qua non, meu caro. Já pensou, o George Lucas filmando Guerra nas Estrelas na base do pincel? Nem Deus, meu caríssimo. Nem Deus. A ver pela exuberância daquele meu caríssimo, ou os efeitos especiais dos cisnes negros iam ser especialíssimos ou os afazeres noturnos tinham sido muito para além de qualquer idem. - E o roteiro? Gostou? Fazer o quê? Repetir o xingamento às autoridades alfandegárias do país dos cipós por não me terem fornecido um guia à la marechal Rondon da floresta ou voltar a fazer do 15º tratamento um palácio e do meu pesadelo um boi de binóculos? Melhor não bater de frente com o quadrado da largura e deixar rolar o marfim na percalina. - Gostei muito. - Ainda bem. Que o trabalho que me deu, não criar a coisa em si, veja bem, mas aparar as arestas do pessoal, foi o décimo terceiro trabalho do Hércules. Reparou no clima que eu dei ao começo? Pois lhe digo, foi mais difícil convencer o Ximu a usar o Villa-Lobos na trilha sonora, do que convencer a Catarina Bordalo a tirar a roupa nas cenas mais dramáticas. Uma pausa, um bufo, e os amazonas peitorais inundaram até os currais dos búfalos da Ilha de Marajó. E eu, agora, sim, boizão de binóculos olhando dois palácios. Acreditar em quem? No anzol do pescador de robalos, que mandou botar os Cruz! Cruz! Cruz!, ou no 15° tratamento que não quis botar a tal de Júpiter? Mas o pinípede não estava preocupado com o estrago que poderia fazer o peso da minha dúvida. E, bem vistas as coisas, não deixava de ter razão. Peso por peso, o dele batia o meu a metro cúbico por centímetro e a transcendência não era duvidar, era filmar. - Meu caro, apesar do que dizem por aí, fazer cinema no Brasil não é difícil. Difícil, primeiro, é encontrar o que filmar, e, segundo, é encontrar com quem filmar. O resto, são apenas pormenores. E pormenores fáceis de resolver, dependendo de quem está no leme do barco, claro. Que tem gente por aí que se mete a navegante mas não sabe nem botar a mão no leme. Pausa e um meneio de cabeça à la Marlon Brando, O Poderoso Chefão Don Corleone, e um sorriso fazendo parelha com a pausa. - Mas vamos assistir? Fazer o quê? Perguntar onde ficava a Disneylândia dos efeitos especiais ou seguir a pororoca dos amazonas e desaguar no lago dos marrecos? São Mora e a sua Primeira epístola aos Incréus que me valessem. Se o robalão, além de pai putativo e diretor do 15º tratamento do Ximu, era também o produtor, como deixar de cumprir a Primeira lei de bem trabalhar em equipe, manda quem pode, obedece quem tem juízo? - Vamos, claro. - Mas, primeiro, quero lhe apresentar a equipe. - Ótimo. - Não é pra me gabar, não, mas é uma equipe escolhida a dedo. Da melhor qualidade. - Imagino. Imaginar é que nem rezar. Não custa nada e sempre tem compensação. Se não der em nada, pelo menos, deu tempo. Só que não deu. Ainda o primeiro Padre Nosso estava no altar e todos os decibéis do sudeste do Brasil bateram ponto em Hiroshima. - Ximu! Não levou nem um átimo, e as três cruzes do cururu ganiram do nosso lado. - Sim, senhor. - Chama o pessoal. - Sim, senhor. - Rápido, Ximu. - Sim, senhor. Outro menos que átimo, e os eleitos do Senhor já cantavam hinos no recinto. Os seis que usavam gilete no sovaco saltitando feito pererecas caídas em desgraça, e os cinco que passavam a gilete na cara pulando do mesmo jeito. Não fossem os anzóis do pinípede, fuzilando que nem galões de comandante da Vila Militar em dia de revista e o peixe-morto dos faróis da tripa do Ximu, e aquela pulação estaria mais para presente de amigo-oculto do que apresentação de Estado-Maior Conjunto de filme em ponto de trabalho. Mas calei a boca e deixei as baionetas dos centígrados pegarem de cabo-de-guerra com os 212 graus farenheit da Lauren Bacall. Afinal, trabalhar não é só botar o muque na roda. É deitar e rolar na paisagem. - Chamou, chefinho? Mesmo quem nunca assistiu um Fla-Flu em Maracanã de domingo sabe que um coral de mais de três vozes não é fácil de afinar. Por mais maestrice que haja no comando, há sempre um que sai da raia. Por isso me espantou a afinação daquele chamou, chefinho?, fungado a onze vozes e outro tanto de pulinhos. Nem um decibel a mais ou a menos. Satisfeito com o resultado do uníssono, o robalão iscou os anzóis e mandou ver a causa da chamada. - Quero apresentar a vocês o meu amigo Adauto Simplício, enviado especial da Revista da Cidade, que veio assistir às filmagens e vai fazer uma matéria comigo sobre o filme. Gostei daquele meu amigo. Como sempre tive poucos, mais um já era sobra. Mas não foi só pela sobra que lambi o picolé. A lambuzada saiu do bis dos pulinhos, acompanhados de palminhas e gritinhos. Como muito bem dizia meu velho pai, melhor ser amigo do rei do que amante da rainha. Além de não correr perigo de forca, ainda tem direito a vênias e vênios. Para não destoar do conjunto, adeqüei o sorriso aos conformes da circunstância e esperei o comando dos anzóis. Que paralisou os pulinhos e os gritinhos bem à la Heleno Nunes, aquele almirante da Marinha de Guerra e presidente da Confederação Brasileira de Desportos, aquela CBD cabe mais um, que apresentou à Comissão Técnica o capitão do Exército Cláudio Coutinho como técnico da Seleção Brasileira na Copa do Mundo, perdida na Argentina em 1978, com o grito: unidas as armas, meus senhores, ninguém nos vencerá. - Catarina Bordalo, a nossa muito mais do que querida Florismália, e estrela maior do cinema brasileiro. - Muito prazer. - Encantada. Encantado ficava eu se fosse a Revista Playboy. Com uns acostamentos como aqueles nem o Tio Patinhas chiaria se fosse multado por dirigir em cima deles. Junto dela, nem a Lassie à la Nunca Fui Santa, nem a própria Marilyn Monroe se atreveriam a fotografar um novo calendário. Material para nenhum trial divan botar defeito. E depois dizem que brasileiro gosta de bunda. Brasileiro gosta de bunda, porque merda é o que mais tem por aí, entendeu? Mas deixemos as análises do fetiche aos cientistas sociais e vamos ao resto, que as iscas do pinípede já tremelicam, impacientes. - Geraldo Columbano, o nosso inimitável grande cidadão, e ator de todas as grandes novelas da televisão brasileira, hoje debutando no cinema. - Prazer. - Prazer. Vênia cá, vênia lá e mãos em função de, e o prazer/prazer encheu até o saco dos bate-palmas oficiais do baú do Sílvio Santos. - Guilherme Teles, o nosso maravilhoso cururu voador, Patrick Silvera, o nosso genial diretor de fotografia, Rofre Santoro, o nosso grande diretor de arte, Nito Lemos, o nosso sensacional diretor de som, Selma Lívia, a nossa magnífica continuísta, Dorotéa Mé, a nossa brilhante figurinista, Mila Jó, a nossa fascinante maquiadora, Zita Preta, a nossa famosa cabeleireira, e Lalá Gomes, a nossa perfeita secretária. Ximu, Ximenes Paraguaçu, o nosso ilustre roteirista, o senhor já conhece. Podia não ser um Estado-Maior Conjunto digno de figurar nas colunas sociais do Pentágono, ou até nas de Brasília, mas a adjetivação já valia o Dicionário do Aurélio. E se o filme se aproximasse da sintaxe, aí é que não me espantaria nada se o Brasil abiscoitasse o seu primeiro Oscar. Mas, espanto, já lá dizia meu velho pai e dizia melhor do que ninguém, é que nem vizinho de viúva. Por mais que tranque a casa, não pode trancar a rua. Se aquele genial, aquele grande, aquele sensacional, aquela magnífica, aquela brilhante, aquela fascinante e aquela famosa me fizeram cair o queixo, o Diretor de Fotografia, o Diretor de Arte, o Diretor de Som, a Continuísta, a Figurinista, a Maquiadora e a Cabeleireira me fizeram cair de quatro. O que é que estava acontecendo com o Brasil, meu Santo Expedito das causas urgentes e dos negócios que precisam de pronta solução? Será que depois que o João Sem Medo enfrentou as baionetas do presidente Médici, aquele que não era Lourenço, o Magnífico, mas também adorava um poder à Termidor que nem lagosta, e não convocou o Dadá Peito de Aço ou Maravilha para centroavante da Seleção Brasileira, o Brasil tinha tomado vergonha e o velho Mora não sabia? Onde estavam o Director of Photography, o Art Director, o Sound Engineer, a Script Supervisor, a Costume Designer, a Make-up Artist e a Hair Stylist da Primeira epístola de São Mora aos Incréus e por quem eu tinha pago trinta marechais, vinte pelo arrumo e dez pela tradução? Será que estariam naquele prazer/prazer, que me botou tanto calo na mão quanta grana o Baú da Felicidade bota no bolso da programa Silvio Santos, sorriso pintado à mão por Don Diego Rodriguez de Silva y Velasquez, dizem que pintor oficial de reis e outros manigantes, com y mesmo, que já foi a sexta das vogais da língua portuguesa, e hoje pinta de garota de programa nas gramáticas prafrentex? Mas fazer o quê? Bancar a fúria do João Sem Medo e acabar treinando feras no zoológico de São João das Antenas, ou bancar o capachismo do Zagalo, convocar o Peito de Aço ou Maravilha e ganhar medalha de patriota e passe-livre nos conventos militares? Razão tinha o velho Abílio Quitandeiro, vascaíno roxo e meu falecido tio e padrinho, entre e entre, nada feito. Melhor ganhar do São Cristóvão do que perder da Seleção. - Gente, espero estar à altura de fazer uma matéria que condiga com o talento de vocês. Na mosca. Quem já viu um bando de andorinhas pousando numa árvore sabe o que é chinfrim de Roberto Carlos em programa especial de Natal. Chilrear. Todo mundo botou um realejo no gogó e até o chapéu do pinípede engoliu as iscas e os anzóis. Mas o sabor da vitória não durou nem um ai-Jesus, como dizia minha santa mãe que Deus tenha, sempre que o velho Eduardo da Micas do Ferreiro saía detrás do balcão para cobrar algum devedor mais pinguço. Logo, logo, a dúvida entrou em campo, rolou que nem trator e ganhou o jogo de virada. Com qual daquelas nossas, a nossa muito mais do que querida Florismália, a nossa magnífica continuísta, a nossa brilhante figurinista, a nossa fascinante maquiadora, a nossa famosa cabeleireira e a nossa perfeita secretária, o nosso gordo pinípede corneava a nossa chanelada Lassie à la Nunca Fui Santa? Se fosse eu, sem dúvida, com a nossa muito mais do que querida Florismália. Bunda nunca foi a minha praia preferida, apesar dos fios-dentais que amarravam até boca de siri da praia de Ramos à praia de Ipanema. Mas como não era nem lobo nem elefante-marinho, e não tinha a menor idéia do gosto dos pinípedes, quem sabe o quadrado da largura além de ser cumpridor das leis do trânsito e não dirigir em acostamentos por mais bem acolchoados que fossem, ainda gostava mais do narigão da nossa magnífica continuísta, ou dos olhos vesgos da nossa brilhante figurinista, ou dos dentes acavalados da nossa fascinante maquiadora, ou das orelhas de abano da nossa famosa cabeleireira, ou das nádegas tanajuras da nossa perfeita secretária? Como sempre dizia meu velho pai e dizia muito bem, gosto é que nem mulher de vizinho. Tem vizinho que gosta, tem vizinho que não gosta. E daí? Daí, que continuei com a dúvida nos atrozes e, o que é ainda pior, com a obrigação de corresponder ao chinfrim do especial de Natal. - Sério. É a primeira vez que assisto uma filmagem e não sei se serei capaz de abarcar todas as mensagens. Nada melhor do que um palavrão tipo segurança nacional para salvar uma situação pisa-que-pisa. Aquele abarcar calou todo mundo, eu saí da arena mais vivo do que minhoca em vaso de samambaia, e o pinípede fez que nem o presidente do Colégio Eleitoral tinha feito em Brasília. Homologou a vitória do cavaleiro da Távola Sempre-Em-Cima-Do-Muro sobre o cavaleiro da Távola Do-Lado-Mais-Direito-Do-Muro mesmo sem entender o resultado. - Vamos começar? Cadê o stand-in do grande cidadão? É no que dá jogar pedras antes do cachorro aparecer. O bicho rosna e já viu. Não tem essa de melhor amigo do homem ou força de pensamento positivo. O ex-melhor amigo do homem não quer saber de positivismos e não tem mais justo nem mais pecador. Todo mundo paga por igual. Mas foi até bom. Se até ali não havia Director of Photography, Art Director, Sound Engineer, Script Supervisor, Costume Designer, Make-up Artist e Hair Stylist na equipe do pinípede e a Primeira epístola de São Mora aos Incréus parecia até norma do Banco Central, caga regra com a maior propriedade mas banqueiro nenhum cumpre o escrito, aquele stand-in salvou a pátria. Me tirou da escalação de fedor do cocô do cavalo do bandido por ter jogado fora as medalhas de trinta marechais e manteve acesa a chama da fé na amizade do tradutor José Espínola de Morais Sarmento, Mora para os vizinhos do sexto tiro-curto, um chope enxertado num galão de calibrina, ex-tudo em todos os jornais do Rio de Janeiro e meu cupincha desde que servi o primeiro cafezinho ao delegas da 9ª DP da Rua Pedro Américo. O grito das iscas dos anzóis foi que nem passe de pai-de-santo em trabalho de descarrego. Todo mundo virou poste e até os centígrados bateram continência. Com o dedo do pinípede mirado na ponta do nariz, Patrick Silvera, o nosso genial diretor de fotografia, fez o que sempre fizeram os inquiridos em circunstâncias de grito. Alongou as vistas e, se não gritou Terra à vista!, como, dizia D. Maricota, aquela admiradora fissurada das duzentas mil páginas de A Retirada da Laguna dos meus tempos de colégio, tinha gritado o vigia da gávea da nau capitânia do Pedro Álvares Cabral ao avistar o Monte Pascoal, também levantou um braço e apontou, junto do lago, meia dúzia de subeleitos do Senhor, atarefadíssimos, batalhando em duas frentes. Contra os pelotões dos centígrados encarregados de torresmar os mais incautos e contra a pouca firmeza do que parecia ser um andaime, que teimava em não equilibrar o que também pareciam ser alguns holofotes apagados. - O tão só já tá lá. Tão só? Será que São Mora tinha errado a tradução ou a revisão e a correção da epístola na grafia simplificada eram as causas do stand-in ter virado tão só? Salvou-me do pecado da xingação fenestrada o sorriso e a explicação do pinípede à la ministro Delfim Netto, anunciando ao papa, satisfeitíssimo, a consagração do milagre da economia brasileira. - Tom Só, com tê, ó, eme, é o Antônio Solestício, o nosso gaffer, o mais competente eletricista-chefe que tem hoje no Brasil. Só para lhe dar uma idéia, quando o Werner Herzog veio filmar o Fitzcarraldo na Amazônia, quis porque quis que o Tom Só trabalhasse com ele. E pagou uma nota pretíssima pro Tom Só se mandar prá floresta. Mas, também, o Fitzcarraldo não foi uma brincadeira qualquer, não. Além da direção do genial Werner do Aguirre, a Cólera dos Deuses, do O Enigma de Kaspar Hauser, do Nosferatu, o Vampiro da Noite, do Woyzeck e de tantas outras obras-primas, ainda tinha o Klaus Kinski, aquele monstro de talento que foi o primeiro amante da filha Nastassia, tinha a Cláudia Cardinale, e também tinha o nosso José Lewgoy e o nosso Grande Otelo no elenco. Realmente, não foi à toa que até o papa se admirou da grandeza do milagre dos caraminguás da catedral de Brasília e veio ver, pessoalmente, como se acendiam as velas nos altares da maior filial apostólica. Com explicação tão detalhada, até eu fiquei mais que curioso. Mesmo não conhecendo nenhum daqueles filmes, só o Grande Otelo de motorista no tal do carraldo já valia uma espiada. Que preto, no Brasil, ou faz papel de motorista, de mordomo ou de bandido. Isto, sem falar na vontade de ver a cara do tal Kinski. Não era nada, não era nada, era uma coisa que nunca tinha visto. Afinal, um sujeito que comia a própria filha e ainda virava monstro de talento, merecia ser considerado. Ou a filha era um bagulho e a transa passava por obra de caridade, ou a filha era uma segunda edição da Cláudia Cardinale e o sujeito era o maior dos vivaldinos. Nem sim, nem não, muito antes pelo contrário, e deixemos falar quem fala, que mais vale ser badalado por quem bota cofres-suíços em colunas sociais, do que ser santo e ninguém acender vela no altar. Como muito bem dizia meu velho pai, que ninguém chamou para votar na infalibilidade do papa no Concílio Vaticano I, em 1870, e também não foi convidado para limpar a poeira das múmias no Concílio Vaticano II, em 1963, mas entendia mais de ser ou não ser do que todos os confessores de Brasília, o que importa não é a merda que o padre caga na sacristia, é o latim que diz na missa. Mas não deu nem tempo de engolir o latinório. A nossa muito mais do que querida Florismália fez um daqueles periquitos à la tudo que candidato tem direito e mandou ver um bisturi na louvação do biógrafo do monstro de talento. - Eu não achei o Fitzcarraldo lá essas coisas, não. Até a Cláudia Cardinale parecia um espantalho. Dizem que o que mais emputeceu o heil Hitler não foi o crioulo Jesse Owens ter estraçalhado o branquelo Lutz Long nas Olimpíadas de 1936, em Berlim, foi o telegrama que recebeu do general Francisco Franco, dito Bahamonde, admirador confesso da pureza racial dos touros espanhóis: Esquenta, não, meu Führer, que faremos as próximas touradas em Madri. Eu não era toureiro e, muito menos, promotor de olimpíadas, mas deu para sentir o peso do esquenta. Sabe quando falha o sinal e a imagem da televisão pára e fica muda? Igual que nem zero depois da vírgula? Todo mundo encaramelou olhos e bocas, e até os pelotões dos centígrados pareceram congelar os 212 graus farenheit da Lauren Bacall. O biógrafo do monstro de talento botou a filha Nastassia nas iscas dos anzóis e os amazonas peitorais enxurraram casas e botões. Além de não ser toureiro e, muito menos, promotor de olimpíadas, também nunca estive no Paraíso, mas sempre ouvi dizer que até mosquito parou no ar quando a voz do Senhor chamou o Adão e perguntou: Quem te mostrou que estavas nu? O senhor das biografias não perguntou nada a ninguém, mas deu para notar que tinha gostado tanto do bisturi quanto o Senhor gostou da resposta do Adão. E só não disse à nossa mais do que querida Florismália no suor do teu rosto comerás o teu pão, porque o Brasil, em matéria de farinhas, só é o maior do mundo em mandioca. Mas valeu a intenção, todo mundo tremendo nos cascos, mudo que nem vice-presidente, e sim-senhor que nem ministro da Justiça. Salvou a situação o grito do nosso gaffer, confirmando a ligação da motorzada. - Tá pronto. Mais aliviado do que o D. Pedro I depois do Ai! do Ipiranga, Patrick Silvera, o nosso genial diretor de fotografia, limpou as lentes da laringe e abriu o diafragma. - Podemos começar. Se não tem banqueiro que não adore inflação, também não tem maestro que não adore começar. Na verdade, se banqueiro enrica com os juros, maestro enrica com as palmas e viva o Brasil, que o Ame-o ou deixe-o só serviu para mostrar o uso correto dos pronomes oblíquos. O biógrafo do monstro de talento não era nem banqueiro nem maestro, mas, pelos vistos, também entendia de gramática. Num átimo, esqueceu o bisturi da nossa muito mais do que querida Florismália e o espantalho da Cláudia Cardinale, e, com um sorriso à la presidente do IPM que apurou a explosão da bomba no Riocentro concluiu também que não havia indícios que culpassem quem quer que fosse. Afinal, a nossa muito mais do que querida Florismália iria encantar as platéias do mundo ao tirar a roupa nas cenas mais dramáticas de O Grande Cidadão e a Lenda do Cururu Voador e a Cláudia Cardinale tinha entrado na produção como Pilatos entrou no credo. Sem lavar as mãos e sem saber o tamanho do futuro. - Ótimo. Com a pomba da paz devidamente derriçada pelos eleitos do Senhor, num gesto que mataria de inveja aquele cardeal heil-heil dos mosqueteiros da Lana Turner, o pinípede coçou a barba à la mais gordo do Trinity É o meu Nome com um vagar digno de juiz da Justiça do Trabalho e alongou as tíbias em direção aos holofotes. - Vamos? Fazer o quê? Confessar o propósito de só assistir às filmagens das cenas mais dramáticas e antecipar o encanto de todas as platéias do mundo diante da nossa muito mais do que querida Florismália tão nua quanto bem acolchoada, ou virar ministro da Justiça sim-senhor e aceitar o convite mesmo correndo o risco de, além de engolir mais uma decepção faz-de-conta, entrar de vez na frigideira dos centígrados? Só que meu velho pai entendia muito mais de tropeços do que a minha vã sovaquice tenta até hoje imaginar, e sempre dizia melhor do que ninguém, rapaz, propósito é que nem quarta-feira de cinzas. Acabou o Carnaval mas a folia continua. E convite também é que nem feriado bancário. Fechou o banco mas os juros permanecem. Quer dizer, saída, e das boas, só mesmo para os gramáticos que botavam o continuar e o permanecer, embora sinônimos no dicionário do Aurélio, em conjunções tão diferentes. Mas, e eu, que não era gramático, nem vivia à custa das ignorâncias lingüísticas? Cumpria o propósito ou aceitava o convite? Salvou-me da morte pela dúvida... Me deixa abrir reticências e um parêntese, e vamos considerar. Se dizem que existe a cura pelos cristais e pelos cheiros, por que é que não posso eu dizer que existe a morte pela dúvida? Quem viaja em preceitos de cristalografia e de farejo pode até dizer que não tem dúvidas. Afinal, não foi só o senador José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, dito Sarney que entrou nessa tal de Academia Brasileira de Letras e saiu do PDS, o vice-presidente Aureliano Chaves também escutou o galo cantar no galinheiro dos bons ventos e afinou o trombone pelo novo lamiré. Mas eu, que não tenho embocadura musical nem coleciono calhaus e garrafadas, e ainda conjugo o bom e velho duvidar em todos os seus tempos, só me salvei da morte pela dúvida por força de um baita de um soslaio mormacento que a nossa muito mais do que querida Florismália me disparou por debaixo das pestanas. Nunca fui muito dado a olhar mulher pelada em página de revista ou foto de camelô. Entre olhar e apalpar, sempre fui mais pelo que me sentem os dedos do que pelo que me dizem os olhos. Isto, falando de misses e badulaques conjuntivos. Mas, confesso, o soslaio daquele mormação me abalou. Será que não devia ter feito com a Revista Playboy o que fazia com o Almanaque Abril? Colecionar as peitudas desde a primeira Iracema? Deveria. Afinal, patriotismo não é só assistir as paradas do 7 de setembro e esconjurar os sempre notórios elementos comunistas que ainda comem todas as criancinhas mortas de fome na pobreza eleitoral. Mas era tarde para tomar vacina de arrependimento ou choração e, além do mais, tinha gente esperando o meu vai-não-vai. Não afinei o trombone por nenhum novo lamiré, nem enfileirei na torcida das pedras e das garrafas, mas aquele soslaião me deu certeza que valia a pena subir nas dúvidas campanárias. - Com o maior prazer. Na mosca. A resposta valeu por todos os artigos da Constituição mesmo quando rasurados por decreto. O pé-direito do robalo iscou todos os anzóis e entrou de caniço e samburá, a playboy da revista tirou o celofane da censura e abriu todas as páginas, e até os eleitos do Senhor cantaram hinos ao novo companheiro. - Vamos então. - Venha. Eu lhe mostro. Melhor do que as propostas, só mesmo as intenções. E entre o imperativo masculino do então e o oferecimento feminino do eu lhe, pensar em escolha seria o mesmo que votar em candidato da oposição imaginando que voto vale alguma coisa neste país onde político troca de partido que nem surucucus trocam de pele. E voto não vale, que arma de cidadão não vale nada. Primeiro, porque não pode usá-la sem licença, e, segundo, porque licença é coisa de poeta, e, terceiro, poeta mesmo só o Sarney do senador José Ribamar Ferreira de Araújo, no seu batismo de fogo dos marimbondos trezoitados. Que poesia de senador é assim. Ou vale ou tem que valer. E mais não digo, que o presidente do Senado já mandou aviso aos navegantes. Se não é proibido navegar em vias gramaticais, também não é proibido navegar nas camas das assessoras do Congresso e regras assemelhadas. E mais não digo também porque o pescador de robalos já vai lá na frente, rolando a esfera do quadrado da largura nos fofos e infofos da grama, os eleitos do Senhor seguindo atrás que nem formigas-cortadeiras a caminho das alfaces, e o mormaço do soslaio da nossa muito mais do que querida Florismália na rabeira, puxando a arreata dos meus pensamentos mais indignos. Junto do lago, a meia dúzia de subeleitos do Senhor que batalhava em duas frentes, batalhava agora em frente única. De short, sem camisa ou a gosto do freguês, enfrentava na maior dignidade a metralha dos centígrados. Mas era certo, certíssimo, que as baionetas ganhariam a batalha. Embora nenhum deles apresentasse área peitoral condizente com os anzóis do pinípede, os amazonas de suor condiziam com as fontes geradoras. Cada um se derretia de acordo com as suas próprias conjuntivas. Menos os marrecos, é claro, que nadavam, indiferentes e serenos, na merda do lago faz-de-conta. - Tudo pronto, Tom Só? O nosso gaffer apontou a fialhada com aquele gesto que, dizem, o Senhor apontou a terra aos arcanjos no sétimo dia da criação. Fiz a minha parte, agora, cada um que faça a sua. - Só falta fazer a luz. Luz? Com um solão destes dando sopa? Não perguntei, juro que só falei em voz de pensamento, mas ouvido de pinípede, fiquei sabendo, é que nem antena de candidato em campanha de corpo-a-corpo no Campo de São Cristóvão. Capta até pensamento de paraíba, mesmo sendo eleitor em Cajazeiras. - Só amador filma com luz natural, meu amigo. Sabe por quê que o Ed Wood é considerado o pior cineasta de todos os tempos? Porque sempre filmou ao natural. Fazer o quê? Dizer que a usina de Angra dos Reis não funcionava porque Deus era brasileiro e não queria botar ninguém de câncer ou bancar um ministro da Justiça sim-senhor e rasurar a Constituição sem a menor dor de consciência? Como dizia meu velho pai e dizia muito bem, em boca fechada nem perdigoto faz mingau. Mas não era hora de meter a mão na cumbuca do sovaco e dar uma de general Golbery do Couto e Silva , dizem que o maior filósofo que o Brasil já teve depois do cacique Araribóia, ainda hoje visto de tanga nas estação das barcas de Niterói. Naquele solão, os pelotões dos centígrados catavam os 212 graus farenheit da Lauren Bacall com mais raiva do que o Franco Nero catava o general mexicano que lhe tinha comido a mulher na espaguetilândia do Django. Mas não eram só os pelotões dos centígrados. O soslaião também me derretia todos os tecidos. Aí, já viu. Com o andor na posição e a posição em função de, foi aquela dor de olho. O pardal ciscou a merda e não sobrou nem mosca varejeira. Mas não foi por mal, não. Foi que nem destempero repentino que, quando aperta, não tem fiofó que segure. - Quer dizer que é tudo embromação? Se não fosse o estepe digital do Adauto Simplício e as dez ou doze páginas da Revista da Cidade, tenho certeza que nem precisaria a segurança abrir as portas dos armários. O próprio quadrado da largura se encarregaria de me estraçalhar à la raiva de pitbull sem mordaça. Mas dez ou doze páginas eram dez ou doze páginas, e não era todo dia que aparecia uma revista disposta a gastar tanto papel e tanta tinta em proveito da cultura das minhocas. Leia-se iscas. - Embromação é outra coisa. Cinema, meu amigo, se faz com técnica. E bom cinema se faz com boa técnica, deu para entender? Com o cuspe do para entender ensopado em marimbondos, nem parecia aquela boa alma que ainda ontem me tinha dessedado. E, o que é ainda mais chocante, achava até que eu era um escritor. Mas as coisas são assim. Tudo muda. Como muito bem dizia meu velho pai, nem os dias são iguais. Toda semana tem terça-feira, mas só uma tem carnaval. A questão, agora, era botar o pitbull no açaime e dar o tiro da cagada no cocô. - Por favor, desculpe. Eu me expressei mal. Não quis dizer embromação. Eu quis dizer foi criação. Na mosca. Com o tamanho freudantesco do foi, o quadrado da largura baixou o pé-direito do arrufo e os eleitos do Senhor fizeram coro com os anjos. E com a cantoria regida pelo soslaio do mormaço tudo virou céu de brigadeiro. Os meus pensamentos mais dignos entraram pelas janelas da censura e até os marrecos do lago nadaram em águas de bacalhau. E, sem mais aquelas, começou o vai-que-vai. Monte Pascoal no prumo e Oscar de Melhor Filme Estrangeiro à vista. - Cadê o stand-in do grande cidadão? Uma cartola e um fraque, enchumaçados pelas doze polegadas de um barbará de dois metros, aprumaram as dignidades necessárias e uma vozinha à la Maga Patalógica espantou até os prevenidos. - Tou aqui. Foi a vez do nosso genial diretor de fotografia assumir o comando da coluna. - Vai pra lá e vira contra o sol. - Aqui? - Isso. Mas vira mais. Isso. Firme, agora. Ossos firmes, cartola e fraque idem, e lá ficou o nosso stand-in à disposição das lamparinas. Que gastaram muito mais azeite do que todos os pirilampos do templo do Salomão. O chrono do meu casio alarm já cravava 11:17 32 quando o nosso genial Patrick Silvera deu por analisado o estado da firmeza do Maga Patalógica. Deu por analisado, assim, deixou em paz o medidor das luzernas e disse ao senhor dos eleitos e subs que estava tudo pronto para o primeiro take do dia. - Pronto, Columbano? - Só falta a cartola. Encartolado e fraqueado, lá foi o nosso inimitável grande cidadão pegar a firmeza do Maga Patalógica, seguido da nossa brilhante figurinista, que lhe alisava as últimas rugas da vestimenta, da nossa fascinante maquiadora, que lhe secava as abundantes gotas de suor e da nossa famosa cabeleireira, que lhe escovava dos ombros os mais escondidos grãos de caspa. - Pronto? Meio que a zagueirão do Olaria tentando parar uma arrancada do Zico, o nosso sensacional diretor de som rezou a Deus e botou a língua de fora. - Vai ter som? - E eu sou de filmar sem som? - Mas a cena é muda. Lembra daqueles filmes de tribunal, a testemunha tentando explicar e o promotor cortando todos os babados? Só faltou mesmo foi o juiz bater o martelo e mandar evacuar o salão. - Mas o ambiente não é. - E o som vai ser direto? - Claro que não. Eu sou lá de filmar com som direto? - Então... - Mas se botar o som agora e trocar depois, a cor local não melhora? - Melhorar... - Então, ocá. E finis, como muito bem dizia o cacique tupinimó Araribóia, batizado Martim Afonso de Souza e apreciador de um bom churrasco tamoio, salva a pátria quem tem cheque especial e cambura no cemitério quem não tem. Sacou, cara-pálida? - Luz, ok. - Câmera, ok. - Som, ok. - Atenção, silêncio no set. Era um nosso subeleito qualquer, pendurado num megafone, esconjurando movimentos e acústicas. Tudo bem, era função dele, mas querer matar decibéis ali no parque era que nem caçar jacarés na Avenida Rio Branco. Mas valeu o aviso. Nos primeiros cem metros todo mundo cerrou dentes e pulmões, e nem a carrocinha da Kibon apregoou mais picolés junto da porta. Tudo nos conformes do mais perfeito faz-de-conta, foi a vez do pé-direito do quadrado da largura entrar em função de. Num igual, igual, Fidel desce Sierra Maestra acelerado, acendeu um cubanão, puxou uma fumaça à la pulmão mais do que revigorado e sentou-se no cadeirão velascado DIRETOR. Deu uma soslaiada no faz-de-conta dos marrecos, outra na firmeza do grande cidadão, aprovou o que viu e o que não, e, de repente, foi aquele caralho!, matando decibéis a tiro de gogó aditivado. Ponto de exclamação subindo aos céus que nem Elias, o profeta, e todo mundo gelou no tal do set. A viola dos centígrados entrou no saco, os pentelhos idem no pelotão da frigidaire, e até os marrecos pararam de nadar. - Ximu! O Cruz! Cruz! Cruz! do 15º tratamento pulou mais do que pipoca em mão-boba de escurinho de cinema e afiou os cascos nas iscas dos anzóis. - Sim, senhor. - Cadê a porra das mangueiras? - O... Foi a porra do quadrado da largura entrar numa de emprego enfático de pronome oblíquo átono e o O do Ximu virar o mais perfeito pó de peido. Folheando a Gramática da FENAME: em boca fechada nem suspiro sai do ovo. - Pinó! - Sim, senhor. Era o atenção, silêncio no set, ainda pendurado nas pilhas do megafone. - Quem fez de você meu assistente? - Foi o senhor, chefe. - E assistente faz o quê? O charutão voou no lago e ou foi o faz ou foi o quê, o fato é que o relincho do megafone espantou até os pangarés do turismo das carroças. - Atenção, mangueiras molhar grama. Depois dos ohs! ohs! da praxe e outros sopros assemelhados do Estado-Maior Conjunto, e corre-corres compatíveis de alguns subs, lá começa o borrifo daquele tapetão capim-de-burro, para o maior espanto dos marrecos, das formigas e outros artrópodes e anelídeos desprevenidos, e deste primata que vos fala. Salvou-me de uma caída de queixo maracanânica o bafo cariado do Ximu no pé do meu ouvido. - De noite, o chão molhado realça muito mais. - Mas agora é dia. O Cruz! Cruz! Cruz! do 15° tratamento deu uma de soslaio e entrou direto na associação das afirmações peremptórias. - Pra ele é noite. Fez aquela pausa à la virgem confessante, o quinto dedo já no caminho do quarto, e só de maus pensamentos o sorriso botou mel nas doze fontes do parque. - Não entendeu, não? Necas de peripitiba. Mas também não pensei na nossa muito mais do que querida Florismália mangueirada nas cenas mais dramáticas. Pensei foi no camelo do Lawrence da Arábia buzinando no deserto. Como é que pode ele nunca ter reclamado daquele poeirão sem mais tamanho, hem? Vai ver, com as pororocas do Rio Amazonas dando sopa, besteira poupar água no Brasil, não é, não? Não. No Brasil, besteira é poupar técnica. Ok, Touro Sentado, pode levar o meu escalpo. E já que a minha técnica não chegava nem no megafone do subeleito do atenção, silêncio no set, deixei espirrar as mangueiras e cinzei um souza cruz em duas perfeitas covas-fundas, e dei por encerrada a minha participação no esguicho. Que esguichar por esguichar, era muito mais o Smith & Wesson, aqueles dois amigos do Dirty Harry do Clint Eastwood, cuspindo bala & bala nos galos garnisés de São Francisco. Mas era a vida e a vida era assim. E Caxambu também não era São Francisco. Já com os marrecos batendo palmas à mangueira e os artrópodes e os anelídeos mandando ver barcos e bujões de oxigênio, o megafone do atenção, silêncio no set, levantou o braço que nem o comandante sempre que o Sétimo de Cavalaria chegava nas carroças cercadas pelos índios, e mandou um soslaio às iscas dos anzóis. - Ok. Satisfeito pelo dever cumprido, foi aquele sorriso e cascos no megafone. - Atenção, gente. - Luz, ok. - Câmera, ok. - Som, ok. - Atenção, silêncio no set. O quadrado da largura mandou ver outro charutão à la Fidel desce Sierra Maestra acelerado, repetiu a fumaça à la pulmão maracanã, repetiu também a soslaiada no faz de conta dos marrecos e na firmeza do grande cidadão, aprovou o pinga-pinga da magnesiana orvalhando o tapetão capim-de-burro e, de repente, abriu o bué num canhonaço que derreteu até a frigidaire dos pentelhos dos centígrados. - Câmera, ação! Ao comando do morteiro, uma nossa subeleita não identificada pulou bem na frente da Nikon metida a canhão antitanque, abriu e fechou um quadro de madeira feito que nem bico de pelicano, e mandou ver também a sua buzinada. - Seqüência um, plano um, take um. Foi aquele xxxxxxxx de mosquito freando asa no vôo e, trinta segundos cravados no chrono do meu casio alarm, mais chinfrim menos chinfrim, o velascão DIRETOR berra de novo. - Corta! Um minuto de suspensão, daquela de réu antes da sentença, e as iscas chisparam nos anzóis. - Ótimo! O que antes parecia um museu fechado para recauchutagem do acervo, no soar daquele ótimo zoneou mais do que Maracanã em tarde de seleção canarinho enfrentando misto de Roraima e Amapá. Parecido, só o Oscar de Melhor Filme Nacional Um, cem, mil, viva Tancredo Neves presidente do Brasil! cortando ecos nas esquinas da Avenida Rio Branco. Para não destoar do conjunto e manter a conjuntura de um verdadeiro Adauto Simplício, abri também o bué e dei os meus pulinhos e gritadas. Afinal, como dizia meu velho pai e dizia muito bem, se não é por dinheiro, melhor é a gente correr atrás dos outros do que os outros correrem atrás de nós. E pronto. Sem qualquer impedimento ou obstrução da legal, foi feito o meu batismo de cinema na lua nova desta terça-feira, 22 de janeiro de 1985, plantão do anjo Lauviah e dos santos Victor, mártir, Vicente, diácono e mártir, Gaudêncio, bispo de Novara, e Anastácio, mártir, aniversário de dois anos e um dia dos meus suados cruzeiros novos entrarem pelo ralo da Caderneta de Poupança Delfin, empandeirada pelo Banco Central, que sempre lhe tinha dado a maior força, mas, de repente, resolveu dar uma de chuteira. Duas coisas que, realmente, nunca pensei que pudessem acontecer. Eu ser batizado numa de Hollywood tupiniquim em Caxambu e o Banco Central dar uma de macho-macho. Mas, pensar é que nem escalar time, sempre dizia o velho Abílio Quitandeiro, vascaíno roxo e meu falecido tio e padrinho, o técnico faz segredo, faz segredo, mas o que interessa é fazer gol. Serenado o oba-oba e lustrado o ego do robalão até faiscar que nem anel de bispo em crisma de quaresma, afinal eram trinta segundos de bola parada e de silêncio para torcida nenhuma botar defeito, todos os eleitos e subs se alinharam diante das iscas do chapéu que nem bóias-frias em fila de pagamento. Eu não sei o que pensa um boi quando olha para um palácio, mas sei o que faz o dono quando o boi mija fora do penico. E não sou só eu que sei. A ver pelos suspiros e pendulagem das cabeças dos eleitos e dos subs, todo mundo ali sabia quem era o boi e quem era o dono do boi. Como eu não era boi nem era dono, deixei o marfim rolar pelos soquetes dos pulinhos e fui espiar a bem-aventurança dos marrecos. Não era nada, não era nada, sempre era um descanso natural. Depois de tantos ajustes nos conformes da obra do Senhor, nada como a própria natureza no seu melhor estado de nascença. E os marrecos, honra seja, preencheram completamente o meu desejo de ver um horizonte há muito perdido na montoeira daquele maquinário. Mais impávidos e serenos do que juiz mandando derrubar barraco de favelado e proteger condomínio de banqueiro, mergulhavam os bicos na lama como se aquela massamorda fosse o mais apurado embeurrée d’escargots do último festival gastronômico do Hotel Meridien. A condizer com as bicadas, bem no meio do lago, uma estátua de mulher mais nua e envergonhada do que minhoca em função de, parecia até aquela mina do calçadão da fama da Avenida Atlântica esperando turista que bancasse taifeirices à la marinha do Tio Sam pagas em dólar. Na contramão dos marrecos, dois curumins peladões deitavam nos pés da mina e mandavam subir um olharão que nem te conto. Quer dizer, a ver pela vitrine, tudo nos conformes nos futuros dramatismos dos vôos cururus. Quando me contaram que um tal de Marcel Proust, só porque lambeu um biscoito conseguiu encontrar todo o tempo que tinha perdido e mais algum que nem lembrava, eu não acreditei. Se um simples biscoito podia ser um memoriol mais perfeito do que choque elétrico em oficina do Departamento de Operações e Informações - Centro de Operação e Defesa Interna, DOI-CODI para turistas não fardados dos mosteiros da catedral de Brasília, imagina o destempero que não faria um bolo ou um pudim. Nem todas as vidas passadas escapariam da procura. Mas, acreditar, já lá dizia meu velho pai e dizia muito bem, é que nem bênção de casamento. Sai da igreja, entra na cama, e o quarto vira circo. Como eu sempre vivi de olho pregado no chrono do meu casio alarm, correndo mais do que o João da Mata atrás de tudo que pudesse virar cheque, às vezes me dava uma vontade desgramada de entrar numa biscoiteca e lamber todos os biscoitos. Quem sabe, com meia dúzia de lambidas, o tempo dava uma virada e corria atrás de mim em vez de eu correr atrás dele? Claro, eu não era esse tal de Marcel Proust, nem sabia que biscoito ele gostava de lamber, mas procurar era comigo. Não era nada, não era nada, foram anos e anos de experiência catando bicharada perdida no Aterro do Flamengo e encruzilhadas circundantes antes de botar a mão naquele royal straight flush no Hotel das Paineiras e trocar a camiseta de barnabé pela gabardine e pelo chapéu do Humphrey Bogart, mais os 212 graus farenheit da Lauren Bacall, e virar investigador particular. Portanto, era só questão de acertar os biscoitos que língua era o de menos. Colocada a questão em pt, parágrafo e outros codinomes, já deve dar para sentir que aquele não do eu não acreditei, não era um não de não mesmo. Lembra daquele não de virgem-mártir em porta de motel? O meu, para ser igual, igual, só lhe faltava o motel. E, aí, sem motel e sem virgem, já viu. Com todos os eleitos e subs suspirando ahs e ohs na frente do monitor, e eu mais jogado às traças do que minhoca crocando no asfalto, de marreco a biscoito a distância não era nem questão de efeito especial. Uma pestanada foi suficiente. A biscoiteca abriu as portas e babau. Adeus gabardine e chapéu do Humphrey Bogart, adeus 212 graus farenheit da Lauren Bacall, adeus diárias à la taifeiro da marinha do Tio Sam pago em dólar, adeus nº 5 do Chanel da Lassie à la Nunca Fui Santa, adeus tudo. Na minha frente, orgulhosíssimos da sua condição de chapes-chapes de fundo de quintal, os dois marrecos compunham o melhor arroz de cabidela que a minha santa mãe que Deus tenha, sempre cozinhava em todos os domingos e dias santos do calendário vaticano daquela de tal de Serra do Gerês. Salvou-me da mais que pior indigestão um balanço no zoom da minha Nikon e um bulício no ouvido. - Você é mesmo jornalista? Como nunca fui telegrafista nem participei de nenhuma Olimpíada, o susto do balanço e do bulício não provocou nenhum delíquio e foi fácil encarar aquele sorrisinho de soslaio à la mormaço dengo/dengo, que a tripa do Ximu tinha esquecido de botar na psicologia da nossa muito mais do que querida Florismália. - Só não trouxe fotógrafo. - Mas trouxe máquina. - E que funciona como deve. E mais não foi dito nem perguntado, porque não era necessário nem estava escrito no roteiro. O balanço no zoom da minha Nikon foi que nem o pt, saudações do telegrama e só não entendeu quem nunca tirou fotografias com flash. |
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CUNHA DE LEIRADELLA Casa das Leiras . São Paio de Brunhais |
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