CIDADES/Apresentação de Floriano Martins
Hélio Rola
20-03-2005 www.triplov.org

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HR01

CIDADES – HÉLIO ROLA

 

Individual Memorial da Cultura Cearense
Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura
Curadoria: Floriano Martins
Fortaleza, março/abril de 2005 - Brasil

 

O Memorial da Cultura Cearense apresenta a individual Cidades, do artista plástico Hélio Rola, mostra de obra múltipla (acrílica sobre tela, óleo, collage, instalação, escultura, fotografia animada), onde se propõe uma leitura crítica de dois tempos de uma mesma cidade, dimensionando a ação do homem sobre seu tempo. Hélio Rola (Fortaleza, 1936) é um dos mais expressivos artistas brasileiros, e exibe agora uma densa retrospectiva de sua trajetória criativa, incluindo obras inéditas e uma seleção de pinturas originalmente apresentadas na individual Hélio Rola (Museu de Arte Contemporânea, MAC-USP (São Paulo, 1996). A curadoria é do poeta Floriano Martins, também responsável pelo ensaio fotográfico que ora apresentamos em TriploV .

 

Para o artista Hélio Rola (Brasil, 1936), a arte é tanto o que se volta sobre si mesmo quanto o que evoca reparos, meditações, discernimentos e, sobretudo, expande os limites de nossa percepção da realidade. Para tanto, incide de maneira vertiginosa, sobre a pele dessa geografia humana, descarnando-a, e sendo o próprio reflexo descarnado de seus conflitos, acentuando o quanto há de imitação e desencanto naquele espectro em que fixamos nosso juízo acerca da cidade, do espaço público de convivência, dessa demografia exeqüível com que sonhamos todos e raros se animam a fazê-la existir.

Eis então as duas cidades que propõe: a de ontem, a de hoje. Seu humor cortante impede que se manifeste qualquer forma de saudosismo. Há uma cidade branca, arejada, que reflete um momento idílico e ao mesmo tempo prevê distorções; e uma cidade negra, sufocante, que incapacita qualquer esperança. As duas margens de um mesmo rio estimulam um baralhamento de idéias, quando pensamos nos recursos técnicos que o artista utiliza para provocar sua estimativa. Se a margem branca se mostra em grandes painéis de acrílica sobre tela, a contraparte reúne uma mescla de técnicas que dão sinal de uma sufocação, e cavam a terra sob os pés do expectador.

As duas margens desta exposição, as duas Cidades de Hélio Rola, são um paralelo, ético e estético, acerca do que o homem conseguiu provar a si mesmo até o momento, onde naturalmente atua o entendimento de feitos e efeitos da criação artística. A multiplicidade de técnicas a serviço de quê? Para que insistir em tantas maneiras de dizer que o homem é um animal falido do ponto de vista social, que o convívio se limita a perseguições, conluio, estratagema, enfim, que o homem não sobrevive sem um artifício, que esta é sua habilidade essencial? Ontem ou hoje, a cidade é o tablado dessa articulação humana, realidade postiça, recurso engenhoso de simplesmente escapar vivo. O que Hélio Rola indaga com toda a força de seu ser e de sua arte é: e se sobrevivermos, a que estaremos sobrevivendo?

Floriano Martins - Curador
Março de 2005

 
[A íntegra deste ensaio pode ser lida em http://www.revista.agulha.nom.br/ag44rola.htm ]