Pontuações em torno de "Lugares de lume" e 
"O corpo e o sangue" de António Barahona
José Augusto Mourão
Ordem dos Pregadores


"Lugares de lume" (LL) e "O corpo e o sangue" (CS) são dois livros que desaguam um no outro, arrastados pela temática, pela modulação da voz, pelo modo aforístico em que são escritos. Os incisos, as marcações, os fragmentos pontuam estes livros que são "pingos de sangue, buracos na pele, feridas que não fecham" (LL:14). Poeta maior, não versejador, António Barahona é bem o nosso Quoheleth, coleccionador de sentenças convertido em poeta que pensa (escreve) cristãmente. Escrita sapiencial. Contra a mecanização e a técnica. Contra as rãs que "se encheram tanto de vazio que pareciam bois" (LL: 30). Admirável.


O seu projecto de escrita concilia teologia com poesia, monarquia com liberdade, religião com esoterismo, moral com erotismo, amor com guerra em que Deus é o ponto central de referência e convergência (CS: 11). Os paradoxos fazem a sua delícia: "só o poeta se apropria e plagia os pensamentos alheios, desde que lhe pertençam" (p. 23). Até aqui nada de novo: nós somos todos ladrões de palavras. Mas o que é um poeta que pensa cristãmente? Uma primeira questão: se, como escreve o nosso poeta, na esteira de Jean Cocteau, "a poesia é uma religião sem esperança" (CS: 56), como conciliar então teologia e poesia? Não é Deus o objecto da teologia? E não é um dos nomes de Deus "Salvador"? Como pode Deus ser uma referência que não salva?  

Lukács dizia que a decadência era a eternização do instante, a paragem da história que se opunha ao progresso. Que Cristianismo é este? A decadência do Cristianismo é para subir (LL: 18)? Não está antes na sua imanentização (idolatria)? Na sua antropomorfose? Merleau-Ponty fala da carne - é o seu ateísmo - a lógica da carne como o arcano do invisível. No autoritarismo?

A autoridade de Cristo não é a mesma dos "escribas", esses repetidores da letra que não arde e de uma justiça em que não se respira o ar da liberdade. São os auditores que distinguem o escriba e Jesus, não é a doutrina ensinada. É o facto de ser tocado que autentifica a palavra recebida, o que não depende de diploma, de mandato ou de mitra. A questão do acontecimento deve preceder a da identidade (que é resolvida a partir das classificações hierárquicas numa sociedade). Jesus coloca a fonte diante de nós - a fonte da lei é mais do que a Lei. Ele apresenta-se do lado da fonte, não da letra que "ultrapassa", sem a recusar. Com a Lei, ou passamos por ela (passagem da Sabedoria) ou assolapamo-nos nela (é a imobilidade do ídolo). Não é um Mestre que encoraja ao zelo redobrado por uma prescrição legal. A chave da casuística é o "se" face ao absoluto do imperativo legal. Que seria a lei sem a Presença?

A sua inclinação teocrática rima bem com o seu desejo de restaurar a Inquisição que é o braço direito da Monarquia (LL: 31). Meu caro poeta, as teocracias, as polemarquias, as plutocracias são regimes em que dominam os padres, as armadas, os banqueiros - regimes de onde o divino desertou. A moral está do lado da máquina (Sade). O humanismo é a ideologia da máquina. Porque agarrar-se ainda a esses velhos fetiches?

A torre de Babel, se a tivessem acabado, ter-se-ia fechado na verdade das línguas, na exclusão de um terceiro. Excluir é fechar-se. A mistura das línguas, dos pensamentos, abrem terceiras vias múltiplas. Assim a torre ficou aberta. O terror vem do terceiro excluído. Nestes versos há inimigos em toda a parte: os ateus, os dirigentes católicos que, no final do século XIX e na primeira metade do século XX desobedeceram aos Sumos Pontífices (CS: 61), maçonaria, progresso. As moscas perturbam. Matem-se. Do ponto de vista da metralhadora, o adversário não passa  de um pequeno ponto negro que tem de se tornar paisagem. Roma real funda-se na exclusão sem crime ritual dos Tarquínios. A Roma da República, pelo menos, dispensa cadáveres. O inferno é a dialéctica, que é a lógica da imobilidade, da repetição. É a lógica do império. Estúpida. Há uma Babel feliz - essa língua que o poeta fala e que é muitas.

É verdade: a Catequese e a Teologia são plurais e o dogma singular (CS: 59). Mas a Liturgia é um sítio elocutório, "um ícone oral", de acordo, em que o dogma cede o lugar ao corpo e à voz. A história de Deus hesita entre duas representações: a do ídolo antropóide, esse grande Duplo projectado por Narciso à superfície dos céus proteiformes e a do Absconditus, do Invisível, o Outro, áfano, Impredicável.

A oração do pai Nosso não contém a Doutrina inteira do Evangelho (p. 58). "Eu vim para que tudo aconteça: o fim do céu e da terra e a chegada do Reino". Não é a Doutrina que a oração saliva, mas a ferida da existência, o trágico e o irremediável que enrolamos no fumo da carne lacerada. A tragédia do homem foi ter vendido a alma por tempo, linguagem e ferramentas, armas, dominações e delegações.